A verdade sobre o Campeonato Brasileiro de 1987

Publicado: 15 de abril de 2010 em Futebol
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Olá amigos!

Como bom Rubro-Negro que sou, estou a par de tudo o que vem saindo na mídia sobre o tal Campeonato Brasileiro de 1987 que insistem em tirar de nós, flamenguistas, e dar ao Sport, que com todos os méritos foi campeão da 2ª divisão daquele ano e por tabela reconhecerem o tão badalado São Paulo.
Bom, dois fatos me chamam a atenção nisso tudo:

1. após a pífia participação do Todo-Poderoso São Paulo no Campeonato Brasileiro de 2009 perdendo o título que “estava em suas mãos” assim como também estava nas mãos do Palmeiras, a mídia que vem dando tanta atenção a esse time, resolveu continuar a mantê-lo em seus noticiários. Por que? Ora, resposta fácil: para vender sua camisa a patrocinadores, pois o São Paulo é o time da mídia, o time que está na moda.

2. o 2º fato é que com o nosso suado título, tudo veio à tona justamente por causa do medo deles, são-paulinos, perderem a tão cobiçada Taça das Bolinhas.

Diante disso tudo, fui pesquisar na net e achei um texto absolutamente perfeito de um jornalista do portal Globo.com, Gustavo Poli.
Por achar tão rico em informações, resolvi copiá-lo (com os devidos créditos, claro!) e postá-lo aqui para todos os meus amigos que acompanham esse humilde blog possam também saber qual a verdade sobre o tal Campeonato Brasileiro que a CBF insiste em nos tirar.

Segue na íntegra o texto e no final o link para o original.

“O grande debate surdo começou na segunda-feira, dia 7 de dezembro. Ele já vinha se ensaiando, em escaramuças virtuais, mas claro, ganhou força assim que o Flamengo conquistou seu (quinto, sexto?) título brasileiro com a vitória sobre o Grêmio. Os rubro-negros cariocas, muito enfaticamente, celebraram o hexa, e o empate em numero de conquistas com o São Paulo. Os tricolores paulistas, claro, ironizaram – dizendo que 1987 não foi título, porque a CBF não reconhece etc. E torcedores do Sport Club Recife, bom, esses… estrilaram.

É uma discussão que se arrasta há tanto tempo – mais de 20 anos – que dez entre dez cronistas esportivos bufam, sopram e grasnam diante dela. Você deve ter lido e ouvido um caminhão de gente dizendo que não agüentava mais falar sobre o tema, que ele era insuportável, mala, ugh, mais chato do que um videoteipe da Fernanda Young se auto-entrevistando e posando nua ao mesmo tempo. Este escriba aqui, arriscadamente, discorda. A discussão está longe de chata. Pelo contrario – ela é fascinante. E é assim porque é uma típica história brasileira – repleta de macunaímas e capitães nascimento.

O debate é surdo porque nenhum dos lados quer, no fundo, ouvir o outro. O torcedor quer apenas vestir seus argumentos como fatos, apresentá-los e usá-los em favor de seu time. O mais interessante, pois, é como a discussão sobre o hexa-penta (ou penta-hexa) expõe a matéria-prima de todo e qualquer torcedor: o viés. Em nenhum idioma, a idiossincrasia do fã de futebol foi tão bem captada como no Brasil: o verbo torcer nasceu de um hábito das finas torcedoras do início do século XX: elas, agoniadas com os dramas em campo, torciam lenços com as mãos. Mas, de lá pra cá, o verbo galgou parâmetros.

O que fazemos, na arquibancada, é torcer a realidade a nosso favor. As faltas a favor do nosso time são evidentes. As faltas contra nosso time nunca existem. O juiz rouba contra nós – sempre – a não ser quando marca aquele pênalti incrivelmente inexistente e bom, aí, é “errou, né, mas já cansaram de errar contra nós” ou “o juizão é nosso” (o que é claramente perdoável). O torcedor tem a isenção do leão diante da zebra.

Exemplo?  Procure MEIO torcedor do Flamengo que não considere o titulo de 1987 como brasileiro. É mais fácil encontrar um branco não-turista em Soweto (Informe Copa 2010: em Soweto, vivem três milhões de negros e 16 brancos).  Por outro lado, procure MEIO torcedor do Sport que diga que o time não é o único campeão daquele ano.  Procure mais – busque um torcedor de Vasco, Fluminense ou Botafogo que não torça o nariz implicante e diga “hexa sem ser penta… deve ser a primeira vez”.

E é por isso que a discussão é interessante – ela é um típico debate brasileiro sobre futebol. Foi Nelson Rodrigues, ecoando o filósofo alemão Johann Gotlieb Fichte, que sintetizou o viés do torcedor:

– Se os fatos me desmentem… pior para os fatos.

Toda santa discussão de futebol – seja no bar, no gabinete ou no planalto – tem viés. Tem lado. Futebol é fascinante justamente por isso – por ser um jogo que acaba mas não termina. A vitória em campo é, sem dúvida, a mais importante. Mas depois dela se seguem inúmeras e infinitas partidas morais. Exemplo: que torcedor do Corinthians não se irrita quando questionam a legitimidade do titulo brasileiro de 2005 apresentando o football card do Márcio Rezende de Freitas?

Questionar a vitória alheia é parte da dialética do futebol. Como torcemos pelo bem (nosso time) contra o mal (qualquer adversário), precisamos entender a derrota, justificá-la, explicá-la, digeri-la. Precisamos de argumentos que permitam estender a discussão maior – e eterna – que é a narrativa infinda da rivalidade.

E é no cenário desta narrativa que 1987 se insere – e continua vivo – como o campeonato brasileiro por excelência. Como o campeonato que nunca vai terminar – continuará sempre aberto – como uma fresta a expor nossas virtudes e mazelas. Sim, virtudes e mazelas porque o que aconteceu em 1987, dois anos antes da eleição que Lula perdeu para Collor (é…) e da assunção de Ricardo Teixeira ao poder… tem muito a nos dizer sobre o futebol (e o país) de hoje.

É uma história de interesses políticos e comerciais – de enfrentamento entre capitanias hereditárias e um arremedo de capitalismo – que ilustra quão difícil é a construção de um futebol de mercado num país continental. Examinemos, pois, o que plantou essa história sem fim – percebendo como a genuflexão de fatos pode atender este ou aquele freguês. Voltemos pois até 1986, quando começa nossa história.

O monstro de 80 cabeças

Em 1986, a CBF conseguiu (des) organizar o mais bagunçado Campeonato da história (e isso, amigos, é um feito). Era um monstrengo com 80 clubes divididos em 8 grupos de 10 – quatro de elite, quatro menos votados. Classificavam-se para a segunda fase os sete primeiros dos quatro primeiros grupos (28 clubes) e mais os vencedores dos grupos inferiores (4).  E, para  temperar com ácido a feiúra deste rostinho, ali pelo fim da primeira fase uma decisão do STJD (ele já existia) deu ao Joinville pontos de um jogo contra o Sergipe (por causa de doping). O Vasco, eliminado por isso, entrou na justiça comum para cassar a decisão. E conseguiu.

Para evitar uma guerra de liminares, a CBF tentou desclassificar a Portuguesa, por conta de um problema com ingressos. Os clubes paulistas reagiram solidários e ameaçaram boicotar a segunda fase. A entidade máxima, pois, encontrou uma solução salomônico-genial: botar todo mundo pra dentro. A segunda fase passou a ter 33 times. O problema é que com número ímpar de equipes ficou difícil fazer a tabela. A saída foi convidar mais três equipes pela janela – Santa Cruz, Sobradinho e Náutico. Essa vergonhosa zona – no primeiro ano de uma polêmica nova gestão na CBF (a dupla Otávio Pinto Guimarães – Nabi Abi Chedid) – plantou a “revolução” do ano seguinte.  No fim, o São Paulo foi campeão, derrotando o Guarani de Ricardo Rocha em Campinas e nos pênaltis. O América-RJ ficou em terceiro (depois de eliminar o Corinthians) e o Atlético-MG em quarto.

O detalhe a observar:  antes do Campeonato, e por pressão dos clubes, o Conselho Nacional de Desportos (CND) e a CBF acertaram que 1986 seria “classificatório” para 1987. Dos 44 times dos módulos de “cima” do torneio – 24 seriam classificados para a primeira divisão do ano seguinte. A confusão jurídica implodiu essa combinação – e evitou que dois times grandes disputassem a segundona num suposto campeonato de 1987 (Botafogo e Coritiba).

1987, a secessão que não foi

A balbúrdia acima (muito) resumida exacerbou a já antiga revolta com a CBF. Desde 1971, o Campeonato Brasileiro era um cruzamento de bunda-lelê com INPI – todo ano trazia uma patente nova: uma fórmula diferente com um número de clubes variável e injunções políticas de toda sorte. Só uma coisa não mudava: os certames eram cada vez menos rentáveis. Os clubes de maior torcida eram obrigados a disputar inúmeras partidas deficitárias, enfrentando times sem expressão, fazendo viagens longas em meio a receitas mirabolantes (teve campeonato com desempate até por renda). O caos de 1986 foi uma espécie de gota d’água.

O primeiro ato foi da CBF que,  atolada em dívidas, simulou arrego dizendo que não tinha grana para organizar o campeonato de 1987. O simulacro de renúncia recebeu seu golpe no quengo quando o recém-fundado Clube dos 13 –  entidade que unia os 13 maiores clubes do país (os quatro grandes de Rio e São Paulo, os dois grandes de MG e RS e o Bahia) – avisou que organizaria sozinho a competição – e a chamaria de Copa União. A competição teria 16 times (os 13 do clube e os convidados Coritiba, Goiás e Santa Cruz), seria rentável e prometia uma nova era – com estádios cheios e tabela organizada. Pressionada pelas equipes alijadas (Guarani, Sport, América & outros), a CBF voltou atrás – desistiu de desistir – e disse que organizaria sim o campeonato. O Clube dos 13 – que já tinha tabela pronta, patrocínio acertado – não aceitou. A CBF, apoiada pela FIFA (que não pode nem ouvir falar em secessão), ameaçou desfiliar os revoltosos. Vale lembrar que não era uma ameaça vazia: a FIFA, por princípio, sempre ficou do lado das entidades. O impasse estava criado.

Para viabilizar o campeonato, um acordo foi costurado – e assinado pela CBF e pelo Clube dos 13 (signatário Eurico Miranda, então vice-presidente do Vasco e da entidade). Pelo acordo, a Copa União seria o módulo verde de um campeonato com quatro módulos (os outros seriam o amarelo, o azul e o branco). Os módulos verde e amarelo teriam um cruzamento para determinar os campeões brasileiros – algo que, tecnicamente, não fazia sentido nenhum. Aliás, outras coisas não faziam sentido técnico – Guarani e América-RJ, respectivamente vice e terceiro em 1986, jogariam o módulo amarelo.  O América, indignado, recusou o rebaixamento – e o módulo teve apenas 15 equipes.

O Clube dos 13 assinou o acordo – mas combinou internamente que roeria a corda. Pode-se questionar, hoje, a ética do São Paulo ao inserir “penta” ou “hexa único em camisas comemorativas tendo sido um dos signatários do “acordo a não cumpr”ir”. Como pode se questionar a ética de quem assina um papel já sabendo que vai rasgá-lo. Como pontuou certa vez o luminar Caixa D’Água, ou Eduardo Viana, secular presidente da Federação do Rio, representante egrégio do pensamento dirigente nacional:

– Acordo, eu descumpro. Papel, eu rasgo. Opinião pública pra mim deve ser tratada na base da metralhadora.

O acordo foi selado no dia 15 de setembro  – quando a bola da Copa União já havia rolado.  Palmeiras e Cruzeiro abriram a competição numa data que hoje talvez soe profética – 11 de setembro de 1987 – uma sexta-feira. Quatro meses depois, os finalistas do módulo verde cumpriram o que tinham combinado. O Flamengo venceu a Copa União no dia 13/12/87 – botou a faixa e resolveu ignorar solenemente, ao lado do vice Inter, a existência do cruzamento. O módulo amarelo, não por acaso, foi decidido no mesmo dia. O Guarani tinha vencido a primeira partida por 2 a 0 em Campinas e perdeu o jogo da volta, no Recife por 3 a 0. Como o regulamento não previa desempate por saldo de gols – a decisão foi para os penais… e nunca terminou. Ou terminou em 11 a 11 e com os dirigentes dos dois times dividindo o titulo do módulo num clima de casados e solteiros. O Guarani foi citado na súmula por abandono de campo – e abriu mão do título dez dias depois (para evitar uma punição).  Esse é um argumento, aliás, que os torcedores do Sport costumam usar – o titulo do módulo não valia muita coisa.

O que pouca gente recorda é que pouco mais de um mês depois – no dia 15 de janeiro de 1988 – houve uma reunião do Conselho Arbitral, formado pelos clubes, na qual foi proposta oficialmente a modificação do regulamento –para abolir o cruzamento. Nos termos da lei, o regulamento só poderia ser modificado se houvesse unanimidade. Dos 32 times inscritos (16 de cada módulo) – 29 compareceram e votaram. Sport, Guarani, Náutico, Fluminense e Vasco votaram contra a mudança – impedindo-a na teoria. O CND considerou porém que a maioria bastava e proclamou o Flamengo como campeão.

A ópera-bufa não tinha terminado. A CBF ignorou o CND  e marcou as partidas do cruzamento – que era um quadrangular onde todos se enfrentavam. No dia 24 de janeiro, o Sport entrou em campo para enfrentar o Internacional, que nem pensou em ir. Os 11 jogadores do Sport esperaram os 30 minutos regulamentares, assim como o trio de arbitragem – para configurar o W.O.  A partida seguinte, contra o Flamengo, estava marcada para o dia 27. O clube carioca, porém, conseguiu uma liminar na justiça estadual do Rio para não jogar. Os advogados do Sport descobriram que a juíza responsável estava de folga em Angra dos Reis – e estrada estava fechada por causa das chuvas (não é coisa nova). Alugaram um helicóptero e conseguiram convencer a magistrada a cassar a liminar.

Depois de duas vitórias por W.O. para cada– Sport e Guarani se classificaram para a decisão. No primeiro jogo, empate em 1 a 1 em Campinas. No segundo, no dia 7/2/88, vitória do Leão por 1 a 0. A taça das bolinhas foi entregue ao capitão do Sport – Estevam Soares, hoje técnico do Botafogo.  E a CBF indicou Sport e Guarani como representantes do Brasil na Libertadores de 1988.  A proclamação do CND abriu caminho para que o Sport acionasse judicialmente a União – pois o Conselho era um órgão do governo federal.  Três dias depois do resultado em campo, o Sport entrou com uma ação judicial declaratória na décima vara federal de Pernambuco pedindo o reconhecimento do título. Na ação, o Leão acionava a União, o Flamengo, o Inter e a própria CBF.

A sentença do caso – favorável ao Sport – só saiu em 1994. A União apelou e perdeu em segunda instância em 1997. Novo agravo de instrumento subiu para o Superior Tribunal de Justiça – que em 1999 manteve a sentença inicial. Em 2001, venceu o prazo para que o Flamengo (ou qualquer parte) recorresse (para isso seria necessário apresentar alguma evidência nova para reformar a sentença definitiva).  Em suma, é uma sentença transitada em julgado que não pode ser modificada. Muito por isso, a CBF não tomou a salomônica decisão de repartir o titulo de 1987. E, ironia ou não, hoje o Sport é membro do clube dos 13 – e não abre mão de jeito nenhum de ser considerado campeão único do campeonato sem fim.

A paz e os pênaltis

Em 1988, a paz foi selada… e a CBF organizou um campeonato com apenas 24 clubes. Sem o rompimento do clube dos 13 – dificilmente o número de participantes seria reduzido – e continuaríamos patinando em dráculas político-deficitários. Quem elegia o presidente da CBF até então era um colegiado formado apenas pelos presidentes das federações estaduais (isso mudou nos anos 90 com os clubes ganhando voto). E o interesse de cada federação era comer  um pedaço do bolo – mesmo que ele fosse de péssimo sabor.

Em 1988, por causa da revolta do ano anterior, essa camisa-de-força foi enfim rompida – e com algum bom senso. Guarani, Sport e America-RJ foram incluídos na primeira divisão – e o campeonato foi disputado com um número razoável de clubes – 24.  Mas, claro, não poderia faltar uma invenção. O certame começou com um regulamento – que ainda no início foi modificado para acrescentar uma “inovação”: vitória valeria três pontos (antes valia dois). Nas partidas que acabassem empatadas, cada clube levava um ponto, mas haveria um ponto extra a ser decidido nos pênaltis. Isso provocou a abertura gratuita do Maracanã numa tarde de quarta-feira para que Botafogo e Fluminense – que tinham empatado antes da mudança do regulamento – disputassem o pontinho extra nos penais (o Fluminense levou quando Mauro Galvão cobrou… e Ricardo Cruz defendeu).

Parêntesis para Frank Jr

É importante entender que o Frankenstein de 1987 não foi filho único. Doze anos depois, no fim de 1999, uma outra confusão judicial implodiu a primeira divisão nacional. A zorra começou com a perda de pontos do São Paulo (pela escalação supostamente consciente do “gato” Sandro Hiroshi) contra o Botafogo (num jogo que o time paulista venceu por 6 a 1). Com os pontos ganhos, o Botafogo se salvou do rebaixamento e quem caiu foi o Gama-DF. Tendo como campeão o atual governador do Distrito Federal, José Robertone Arruda (que ironicamente torce pelo Botafogo), o Gama entrou na justiça comum contra o rebaixamento e impediu a CBF de organizar o Brasileiro de 2000.

A CBF, ironicamente, disse para o Clube dos 13: toma que o filho é teu. Organiza esse bichano. Mas os Arrudones do Planalto tinham cancha – e conseguiram forçar um impasse: sem o Gama, não haveria campeonato. O Clube dos 13 teve que se curvar e dar vida ao maior e mais distinto campeonato continental deste país – a Copa João Havelange,. Uma coincidência que pouca gente recorda – o nome do troféu do Módulo Verde de 1987  também era… “João Havelange” (o do módulo amarelo era “Roberto Gomes Pedroza”).

Para acomodar o Gama, seria necessário… acomodar todo mundo –  mais ou menos como em 1986. Nasceu então… Frankenstein Junior, um gigantesco calhau com 116 times… e quatro módulos. Sim… o certame de 1987 não foi o único a ostentar nossos queridíssimos módulos. Em 2000, lá estavam eles, bonitinhos –  um módulo verde, um amarelo, um azul… e um branco. O módulo da elite, desta vez, mudou de cor – ficou azul – com 25 times (entre eles, os “importados” Fluminense e Bahia – que deveriam disputar a Série B – além de Botafogo e Gama).

O regulamento de Frank Jr. era criativo: dos 25 times do módulo azul, 12 se classificavam para as oitavas-de-final. O módulo amarelo fornecia três classificados. O último saía do cruzamento entre os módulos verde e branco. Por conta disso, o Brasil poderia começar o milênio tendo como campeão o Baré (de Roraima). Ou o Genus (de Rondônia). Ou o Tocantinópolis (de Tocantins). Ou o Malutron-PR , vencedor da decisão entre os módulos humildes – que jogou nas oitavas contra o Cruzeiro (e perdeu).

Vale reparar na coincidência: a confusão na justiça desportiva, o pulo para a justiça comum, o envolvimento político, o chamado à FIFA, o princípio do cruzamento. Até o nome do troféu…

Desta vez, porém, o confronto não era entre CBF e Clube dos 13 – e sim entre o Gama – com o establishment político de Brasília por trás – e o Clube dos 13.  Como o módulo azul serviria como prévia da primeira divisão de 2001 – e tudo estava claro – não havia motivo cabível para abortar o cruzamento.  Tanto que um time do módulo amarelo, o São Caetano, chegou à final, na qual foi derrotado pelo Vasco no Maracanã (já em 2001) depois de um polêmico jogo interrompido em São Januário.

Enfim, a questão

Após esse muito breve resumo, que pergunta o humilde, imparcial e isento leitor daria para a pergunta… “Quem é o verdadeiro campeão brasileiro de 1987?”

Alternativas abaixo:

a)    O Flamengo, claro, pois disputou o verdadeiro campeonato, enfrentou os melhores times e avisou desde sempre que não aceitaria o patético cruzamento contra times que enfrentaram babas como CSA, Rio Branco-ES, Bangu e Criciúma. Foi o representante da mudança no futebol brasileiro – que provocou o primeiro avanço em eras, começando a implodir o sistema feudal das federações e marcando uma posição histórica, reconhecida pela grande imprensa na época – que produziu inúmeras manchetes com o “tetra” rubro-negro.

b)   O Sport, claro, pois cumpriu o regulamento acordado com todos os clubes e entrou em campo como previsto para o cruzamento. E foi proclamado campeão pela organizadora do campeonato – disputou a Libertadores no ano seguinte e, mesmo ignorado pela mídia do eixo Rio-São Paulo, foi consagrado por sua torcida e pela imprensa pernambucana. Além disso, que culpa tem o Leão se o adversário preferiu marcar uma suposta posição a cumprir as regras que ele mesmo assinou?

Ao vencedor, as bolinhas

Obviamente, a escolha é livre – e interessa menos. Essa é uma discussão eterna. Mas meramente levantá-la provoca irritação em ambos os campos – o presidente do Sport ameaçou processar quem chamasse o Flamengo de hexa e foi soterrado por manchetes (com as esperadas exceções). Ao torcedor do Leão, vale anotar que, se o titulo fosse do Sport, as manchetes seriam bi – porque elas são leituras do que diz a torcida.

Na época,  a CBF tinha um troféu, a chamada taça das bolinhas – que deveria ser entregue ao primeiro clube que conquistasse cinco vezes o titulo nacional. Ele foi entregue pela última vez em 1992… justamente ao Flamengo, que conquistava ali o que seria seu quinto titulo se contarmos 1987  (a mudança do troféu no ano seguinte não sugere alguma coisa?).

Quando o São Paulo ganhou seu quinto titulo, em 2007, os dirigentes do tricolor paulista pediram a taça. Mas a CBF não deu. Ela continua guardada num cofre da Caixa Econômica Federal. Agora, a CBF pode até fazer duas réplicas – e entregar uma para o São Paulo e outra para o Flamengo (já que oficialmente a entidade considera que o rubro-negro carioca conquistou seu quinto título apenas em 2009).

A torcida aqui, porém, é para que a taça permaneça para sempre neste obscuro escaninho federal – como se fosse uma espécie de Hangar 51 futebolístico. A taça oculta é a arca perdida do futebol brasileiro – e só é assim porque ninguém a possui. Ela é o símbolo do campeonato sem fim – um monumento a tudo aquilo que vencemos aos poucos; e representa todo o atraso que exorcizamos até chegar ao (relativamente) racional presente. Hoje não temos mais campeonatos com centenas de clubes – as Séries A, B e C estão organizadas – e a D começa a existir.  Podemos questionar ou debater se os pontos corridos são sensacionais ou não – mas virada de mesa saiu do dicionário dirigente – o que, pode não parecer, mas é um imenso, imenso avanço.

O objetivo desse texto (ou testamento) não é discutir o mérito da questão de 1987– pois seria inócuo. É até se divertir um pouco com ele – vendo quantas idas e vindas se deram – e quantos enredos (e vilões) de desenho Disney o futebol brasileiro já pôs em circulação.  Só tocar no tema já provocará alguma revolta – especialmente naqueles que julgam masculinamente importante que as vitórias de seu time sejam inquestionáveis.

Em qualquer discussão futebolística citar gregos significará desagradar troianos. A partida maior nunca termina – e ser imparcial joga contra tudo o que o torcedor sente, vive e aprende desde a primeira vez em que entra num estádio.  A multidão liberta nosso roberto jefferson interior – na arquibancada,  são despertados nossos instintos mais primitivos. Queremos trucidar o time adversário – ganhar de muito, pisar – se possível humilhando.

Imaginemos, pois, que a Terra tenha sido invadida por alienígenas pintosos com a cara do Keanu Reeves – e que o destino da humanidade depende de uma irrefutável prova de honestidade. Se os ETs não acreditarem que o homem vale a pena, Keanu dará uma olhada definitiva para o robô, e a terra será reduzida a pó.  Keanu informa que nosso futuro depende de dois torcedores escolhidos a dedo: Zé do Rádio e o Dado Dolabella.  A maldade: para provar o equilíbrio da raça humana, as camisas serão invertidas. Zé do Rádio terá que argumentar pelo Flamengo. Dado Dolabella defenderá o Sport. Olho no olho. A missão de ambos é chegar a um consenso.

É verdade que os limites da ficção foram estraçalhados quando consideramos a possibilidade do Dado Dolabella argumentar. E que a escolha dos debatedores prejudicou um pouco as chances do mundo. Mas, apressemos o fim da história, apertemos o botão de fast-forward até o momento em que a galera se levanta, Dado quebra o rádio na cabeça do Zé,  grita “Mengão Hexa”, “chupa Terra!” e vemos Keanu balançando a cabeça negativamente… (ou, numa versão mais popular, Keanu olha para o robô e diz “É vala”). Bom, toda essa variação sci-fi-boleira da  célebre fábula do sapo e do escorpião foi uma tentativa (triste) de  ilustrar o óbvio:  o torcedor não pensa – ele sente. E torce. E distorce.


Link do texto original

* Parabéns ao meu irmão Cassiano que aniversário hoje!
Parabéns, mano! Felicidades pra você!

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